Ainda pensei se valia a pena escrever este post em inglês mas who cares, para escrita emotiva não é possível usar outra língua que não a materna. Vou-me concentrar no que achei melhor no Primavera Sound 2011 até porque com um cartaz tão rico quanto este, não se perde muito tempo com coisas chatas ou indiferentes.
Primeiro Dia
Novo palco em relação à edição anterior, o Poble Espanyol é bastante acolhedor e fez-me lembrar o castelo de Sines do FMM embora mais pequeno. Concertos a destacar apenas Caribou, já que as Robertas levam apenas um voto de simpatia com a sua versão costa-riquenha do som Girl-Group-Lo-Fi das Dum Dum Girls et al e os Echo estão velhos e excluir o Ocean Rain também não ajuda. Faz-me ter a ideia que isto talvez seja uma ideia para prolongar a reunion tour: primeiro tocar só o Heaven Up Here e Crocodiles para os fãs mais fanáticos e para o ano faz-se o “Echo and the Bunnymen plays Ocean Rain” com uma secção de cordas e tudo…
Caribou foi muito bom, tocaram quase só as enormes malhas do Swim, esse álbum de electrónica ao mesmo tempo docinha e hipnótica e bastante headphone-friendly que eu receava que não fosse totalmente eficaz ao vivo. Receios infundados, definitivamente.
Segundo Dia
De regresso ao Parc del Fórum há um palco Pitchfork mais desafogado e encostado ao mar e um novo palco Llevant a prometer caminhadas estafantes aos confins do recinto. Bebidas aos mesmos preços exorbitantes e com la nueva tarjeta a falhar epicamente logo no primeiro dia, oh well, nem tudo pode correr bem, valha-nos a música.
Of Montreal começam com uma actuação surpreendentemente boa e divertida, evitando os aborrecimentos funk-disco dos ultimos 2 albuns e concentrando a actuação em mini-clássicos indie como “The Party’s Crashing Us” e “aquela que toda a gente chama Chemicals mas tem um nome enorme e delirante” e no act de 3 “auxiliares teatrais de palco” luchadores de luta libre que encenaram lutas parvas e stage-diving. Good Fun.
Deslocando-me ao palco Pitchfork apanhei um bocadinho de Glasser e pareceu bom mas a opinião é inconclusiva. A seguir os Walkmen que eu conhecia mal estiveram esforçados embora só tenham satisfeito o público espanhol quando atacaram a “antémica” The Rat ou como pediam eles, El Ratón.
Os Interpol, é impossível negar, revelam ultimamente um cansaço criativo enorme que nos leva a questionar se aquela fórmula de guitarras angulares e carregadas de reverb bastante herdada do pós-punk inglês não se esgotou já completamente. Ao vivo, em frente a milhares de festivaleiros com letras bastante bem memorizadas são bastante eficazes em canções como “Evil”, “Slow Hands” ou “The Heinrich Maneuver”. Não há momentos musicais brilhantes neste set de Interpol, nem eles são propriamente “animais de palco” mas para mim foi bom dadas as espectativas.
De volta ao palco San Miguel para o meu primeiro concerto de Flaming Lips. A fama de grande stage show precedia-os e não desiludiram. O Wayne Coyne tem aprimorado as suas qualidades de frontman e mestre de cerimónias acima de tudo. Lasers, entradas em palco através de um portal, “Crowd Rolling” dentro de uma bola de borracha e chuva de confettis contribuem para uma sensação de deslumbramento no final de um concerto que em termos estritamente musicais não é brilhante. Destaque para a velhinha “She Don’t Use Jelly” a marcar o verdadeiro arranque do set com enormes doses de distorção doseada com uma espécie de energia adolescente.
Para terminar a noite um set curto do agitador Girl Talk, o DJ conhecido pelo uso e abuso de samples não licenciados de hits pop. Não é claramente a minha chávena de chá mas cumpriu bastante bem a função de fechar as festividades no 1º dia de concertos no Forum.
Terceiro Dia
Fiery Furnaces não me satisfez, o Matt Friedberger não se aproximou sequer de um teclado e os medleys de versões ritmicamente modificadas das suas canções acabaram por não arrancar. Parece que não é de facto coisa para se ver em festival.
The National – Muuuita gente, set curto e som algo deficiente. Mesmo assim em relação ao Alive de há 3 anos foi bom ouvir as novas Anyone’s Ghost, Terrible Love, England, etc.
Belle and Sebastian, lovely as always. Apenas tenho uma pequena queixinha de fã sobre as escolhas do “If You’re Feeling Sinister” mas nevermind. O “momento Stevie Jackson” desta vez foi com a interactiva I’m not Living in the Real World e tiveram a humildade que lhes fica bem de deixar a referência breve com a “Common People” para o concerto mais antecipado da noite.
Shellac – Nesta altura a escolha a fazer era entre Explosions In The Sky (pós-rock lindo a espaços e básico e aborrecido no resto), Shellac e Deerhunter. Optei por me afastar das proximidades do palco San Miguel e arriscar perder o início de Pulp para presenciar o início de um concerto de rock-n-roll de antologia. O Steve Albini começou por revelar que gostaria de fazer filhos a alguns (todos?) membros da audiência tal era a sua beleza. Para além de Albini ser um gajo directo e incisivo no discurso, o que eu já sabia, pude finalmente perceber que Shellac é uma Máquina de Rock seco, áspero e vá minimalista, tenso e agressivo quase sempre, tem referências bastante abertas a selvajaria e práticas sexuais violentas e geralmente não é temente a Deus a não ser quando precisamos de ajustar contas com alguém que nos traiu. Acabaram a actuação com o baterista Todd Trainer a malhar num kit cada vez mais reduzido à medida que o Albini e o Bob Weston lhe “retiravam o tapete debaixo dos pés”.
Perdi mesmo as 3 primeiras músicas de Pulp e tive de ficar mal posicionado na multidão do San Miguel mas finalmente vi Shellac no Primavera!
Pulp – durante o concerto fui percebendo que o meu conhecimento da discografia de Pulp era algo deficiente o que num contexto destes não é particularmente grave uma vez que o público britânico mais conhecedor era abundante e gerava por vezes um eficiente karaoke. Babies, Disco 2000, Common People, Underwear, This is Hardcore, Sunrise, Razzmatazz. Enormes Canções, grande concerto, em Paredes de Coura há que repetir a dose.
The Battles fecharam a noite para mim e foi bastante bom embora as forças já faltassem para curtir devidamente a coisa.
Quarto Dia
Fleet Foxes – concerto mais bonito do festival, não foi da hora (pôr do sol) nem do espaço nem da companhia (espanhóis insistentemente faladores). Eles não são apenas putos novos que gostariam de viver nos late 60s e emulam Buffalo Springfield, Peter Paul & Mary ou CSNY. Há ali das melhores canções da última década que conseguiram até por vezes calar os espectadores mais broncos, impacientes ou insensíveis
PJ Harvey – gosto muito dos 2 últimos álbuns mais delicados embora não dispense coisas com as garras de fora como To Bring You my Love ou Rid of Me. A impressão com que fiquei é que é díficil que um concerto de PJ Harvey seja menos que excitante mesmo que neste modo (aparentemente) mais manso. Acompanhada pela banda do costume e de autoharp nos braços Polly Jean Harvey passeou-se com graciosidade pelas novas On Battleship Hill, The Glorious Land, Bitter Branches, England etc.
Pegou por um ou dois momentos na guitarra eléctrica para recordar canções mais antigas mas sempre sem perder a atitude contida mesmo em coisas tão sensuais e perversas como Down by the Water ou Meet ze Monsta. De destacar a performance vocal superior à generalidade da nação indie onde as palavras e as vozes são quase sempre um componente estético negligenciado.
Mogwai – Quase perfeito, dinâmicas no ponto, uma San Pedro que rockou despoticamente, uma Mogwai Fear Satan como sempre inebriante e uma Batcat a terminar com uma riffalhada mais sludgy e indutora de headbanging.
Único “defeito” a apontar foi a Mexican Grand Prix a quebrar o flow com as suas batidas maquinais.
Animal Collective – adoro AC tanto como qualquer outro melómano mas ao vivo aquilo é too arty for their own good ou, visto de outra perspectiva, um grupinho de 4 tipos sob efeitos químicos vários a produzir jams electrónicas desconexas. Acabam por se tornar na definição cliché superficial que os seus detractores lhes aplicam.
Esta “setlist” explica tudo. O Concerto pop/rock é no seu melhor um momento de celebração comunal “daquela” canção que conhecemos como ninguém e adoramos. Os AC podem ter reinventado a pop com os seus excelentes álbuns desde o Sung Tongs mas penso que ainda não conseguiram reinventar o concerto rock com sucesso.
Holy Ghost! – final do festival algo fraco no palco Rayban. Os synths essenciais em Holy Ghost perderam-se na mistura e acabou-se a actuação após cerca de 1 hora. São da DFA estes jovens mas não preenchem para já a vaga de LCD Soundsystem que eram sempre brutais ao vivo.




